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Itapecerica da Serra

Otedama: a porta da esperança do imigrante japonês na Via Poá – Parte I

16 de junho de 2026
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Otedama: a porta da esperança do imigrante japonês na Via Poá – Parte I
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“Imigrantes que fugiram durante a noite relembram as estrelas do campo árido”
(Hyokotsu Uetsuka)

Otedama é um jogo de malabarismo japonês muito parecido com o nosso “jogo de pedrinhas”, também conhecido como “jogo das cinco marias”. É jogado com pequenos saquinhos de tecido cheios de feijão, arroz, pedrinhas ou outros tipos de grãos. O tamanho dos saquinhos varia, mas precisam caber confortavelmente na palma da mão. Embora seja um jogo social, o otedama poderá também ser jogado sozinho e frequentemente é auxiliado por cantigas tradicionais agendando o ritmo do jogo.

A relação entre o otedama e a esperança de uma família de imigrantes japoneses que chegaram à Vila Poá na década de 1920 eu descobriria na fala com o impagável Dr. Kazuo Uehara, a quem conheci, em meados de 1997, durante a longa espera para uma audiência na antiga 1ª Vara Distrital do Fórum de Taboão da Serra. Como era frequente naquele tempo, o começo do ato processual atrasou por horas, felizmente, a prosa agradável do colega veterano fez com que o então jovem causídico nem se importasse com a demora.

Pelos modos, vestuário e linguajar, Dr. Kazuo perfomava o modelo do advogado do Século XX que já prenunciava indícios de extinção. Falava como a “gente antiga”, com erres vibrantes e vocabulário arcaico. Interpolava expressões coloquiais com brocardos latinos falando, por exemplo: “Sua Excelência pauta uma contia de audiências que ‘concessa venia’ é um despotismo!” Simpático, apesar do preciosismo verbal, transmitia simplicidade e inspirava confiança.

Mal nos apresentamos e, sem que eu nada tivesse perguntado, confidenciou ser “membro da Turma de 1951 do Largo São Francisco, dirigida à época pelo saudoso Dr. Brás de Sousa Arruda”. Os cinco anos da graduação, explicou ele afetando orgulho, “foi o único período em que residi fora dos limites da Comarca de Itapecerica”. Entre um café na sala da OAB, a imobilidade da saleta de espera e uma esticada de pernas no átrio do Fórum, Dr. Kazuo contou-me que os avós paternos, Mamoru e Tida Uehara, e seu pai, Minoru, eram okinawanos chegados a Santos na primeira leva de imigração japonesa vinda do Porto de Kobe à bordo do Kasato Maru, em 1908.

Depois de uma década colhendo café na Área da Alta Sorocabana, os Ueharas e mais 19 famílias japonesas deixaram o interior do Estado para começar, em 1919, o cultivo de verduras e legumes no entorno da Capital paulista. Mais tarde, em 1930, da união de Minoru e Helena ? filha de Alice e Raimundo da Silva, casal das Alagoas que trabalhava na olaria da Família Mituzi ? nasceu Kazuo Uehara, vindo à luz na sede da chácara localizada no lado mais alto do carreiro que seria denominado “Estrada das Olarias”, no local próximo onde é hoje o “Campo do Guaciara”. Aparentava menos idade que seus 67 anos, “por conta da paciência oriental e nordestina irreverência”, as quais dizia ter herdado do pai e da mãe.

Tendo monologado por algum tempo, na adiamento do silêncio que se seguiu à conclusão da história familiar percebi que o Dr. Kazuo me fitava, parecendo à espera de que “puxasse assunto” para continuação da conversa. Convidado através do olhar do meu interlocutor, mas com genuíno interesse, perguntei-lhe como um filho da primeira geração de imigrantes japoneses, trabalhadores da lavoura, formara-se advogado na mais prestigiada faculdade de Direito do país. Ele agradeceu a pergunta com um sorriso ligeiro e “pediu licença” para contar um “causo”.

A precisão das datas e nomes, a fluência das frases bem elaboradas e a riqueza de detalhes sugeriram-me não ser a primeira vez que ele contava aquela história. Falta-me talento para reprodução escrita da saborosa narrativa oral do Dr. Kazuo. Ousar transcrever literalmente a linguagem e o ritmo peculiar da sua fala resultaria num pastiche deselegante e vulgar. Tentarei unicamente reproduzir com probidade o conteúdo daquilo que ouvi, repetindo ocasionalmente uma palavra ou expressão peculiares das quais me recordo, apesar disso, consciente dos riscos de traição da memória e de outras armadilhas mentais.

Feitas essas ressalvas, com a palavra o Dr. Kazuo: Meu avô Mamoru contava um ‘causo’ que ocorreu em 1928, antes do meu nascimento. Satoshi Tamashiro e a esposa, Ushi, recém chegados do Japão, foram trabalhar plantando verduras às margens do Córrego Pirajuçara, onde atualmente o Jardim Clementino faz divisa com o Campo Limpo. O casal emigrara de Okinawa com dois filhos e não tinham relação de parentesco ou de amizade com nossa família, que havia deixado ‘Uchinaa-shima’ duas décadas antes. O fatalismo de meu avô creditava à má sorte a perda da filha mais velha do casal Tamashiro, Matsue, aos 7 anos de idade, morta através do sarampo pouco tempo depois de chegarem em Vila Poá, deixando pai e mãe inconsoláveis, e solitário o irmãozinho Yujiro, de 4 anos.

A labuta não deu trégua ao luto. Fizesse chuva ou sol, Satoshi trabalhava na terra desde o alvorecer até o crepúsculo. Ushi, além de amparar na horta, era responsável por todo trabalho doméstico e pelos cuidados do filho. A incipiente produção de hortaliças, no entanto, era incapaz de assegurar alguma melhoria na situação de pobreza da família.

Apesar do baque grande causado através da súbita morte de Matsue, Satoshi continuou o cultivo e a venda das verduras no Mercado de Pinheiros, ao qual já não podia, como antes, ir auxiliado através da família porque agora só havia um cavalo para carregar a si e aos cestos. É que, desesperado, vendera a carroça e um dos animais da parelha sem autorização do dono, o arrendador da chácara, para custear remédios e melhorar a alimentação da filha durante o tratamento mal sucedido.

As coisas andavam ‘neste pé’ quando num final de tarde Ushi, que jamais reclamava, suplicou ao marido para deixarem Vila Poá e irem embora para Cotia, cidade onde moravam sua irmã, o cunhado e três sobrinhos. Aos prantos, a esposa relatou que não suportava mais viver naquele lugar separado com a lembrança da filha a lhe corroer.

Além do mais, o pequeno Yuji também andava tristonho e cada hora mais abatido desde o óbito da irmã, que era a única criança que lhe fazia companhia desde que chegaram do Japão. De fato, Satoshi notara que o rapaz já não brincava com ele ao acordar, como antes sempre fazia, e às vezes nem mesmo queria acompanhá-lo no trabalho da horta, um dos passatempos favoritos por ele e através da irmãzinha falecida.

Ushi tinha razão: não existia mais alegria, só trabalho e lamento. Mas o que ele podia fazer? Abandonar a fonte de sustento da família? E como dar um final à parceria devendo o cavalo e a carroça ao arrendador? Ir suplicar aos parentes da esposa ‘com uma mão na frente e outra atrás’? Dormiu atribulado nessas cogitações.

Despertou antes do horário habitual e sua primeira visão foi o semblante do filho dormindo na caminha sobre o ‘jirau’ postado ao lado da cama igualmente rústica do casal. Era dia de ir ao mercado e Satoshi levantou-se com cuidado para não acordar a esposa. Não quis fazer o desjejum. Prestes a sair, contemplou outra vez o rapaz adormecido. ‘De estalo’, teve a ideia: quando voltasse, ia ensiná-lo a jogar otedama. Poderiam brincar juntos, mas Yuji também teria algo novo para brincar sozinho. Silenciosamente, foi até ao velho baú onde guardavam as roupas e retirou uns trapos coloridos que estavam ‘socados’ num canto. Junto com a marmita preparada na véspera, ‘botou no embornal’ também a tesoura, agulha e linha.

Não havia clareado o dia. Com os dois cestos repletos de verduras pendurados na cangalha, Satoshi seguiu à cavalo através da velha Estrada de Itapecerica (atual Av. Prof. Francisco Morato) a caminho do Mercado de Pinheiros. Por volta do meio-dia, negociada grande parte das hortaliças, arranjou uma cuia de grãos de milho seco e recolheu-se num canto. Depois de comer de forma rápida, iniciou a cortar e costurar os saquinhos de otedama. Em pouco tempo estavam prontos e bem acabados. Alegrou-se ao imaginar o filhinho brincando. E sorriu ao pensar que existe muito tempo ninguém na família se alegrava.

Aprumou-se, arreou o cavalo que descansava na sombra e tomou o caminho de volta com pressa de chegar cedo. Levava no embornal, além da marmita vazia, os cinco saquinhos coloridos e, no coração, uma esperança difusa num futuro incerto.

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Fonte: O Taboanense

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